Pesquisador diz que Europa teme ficar refém da soja importadaA Europa compra quase 10 milhões de toneladas de farelo de soja brasileira, e devido à crise financeira esse mercado pode sofrer algumas mudanças. A disputa por

grãos é uma tendência, pois houve a diminuição do produto disponível em escala global. Portanto, é primordial conhecer as preocupações e interesses deste grande mercado consumidor. Conversamos com o holandês Wouter van der Weijden, diretor da Fundação de Agricultura Sustentável (Centrum voor Landbouw en Milieu/CLM), autor do livro Biological Globalisation e já foi conselheiro da Comissão Européia e do Banco Mundial. Desde 2002, ele atua como presidente do Conselho de Agricultura, Inovação e Sociedade, um órgão do Ministério da Economia, da Agricultura e da Inovação Holandês. O objetivo dele é representar os agricultores, unindo a realidade do campo com a arena política do governo, mas sustentado pela base teórica das pesquisas.
A seguir, a íntegra da entrevista.
Uma das propostas apoiadas pela Plataforma agrícola é que a União Européia diminua a importação de soja usada na ração animal. Quais são os motivos que sustentam essa proposta?
A produção de soja é concentrada em poucos países e existe o risco de haver um desastre natural ou problema geopolítico afetando o mercado. São vários fatores. Do lado brasileiro o desmatamento é uma questão delicada, e por parte da Argentina a soja trangênica é mal-vista e está se espalhando pelo mundo. Temos também a China, que é ainda mais dependente dessa soja do que a Europa e pode uma hora desequilibrar essa balança. A Europa tem medo de ficar dependente da produção e do preço mundial da soja. Precisamos ter mecanismos de defesa, pois o sistema é instável. A possibilidade que temos é de voltar a usar restos de carne e farinha de ossos na ração, o que sempre foi uma excelente fonte de proteína para aves e suínos. O erro com a doença da vaca louca foi alimentar o gado com o farelo de ossos de bovinos; eles não podem comer restos da própria espécie, mas podem comer o resto de galinhas ou porcos. Se a ave ou o suíno comer os restos provenientes da mesma família animal haveria a contaminação da mesma forma, mas com o cruzamento de espécies não haveria riscos. Isso requer muita fiscalização na hora de produzir a ração e não pode haver engano. Hoje os ossos são queimados e usados para gerar eletricidade. Porém, economicamente é mais viável usá-los como fonte de proteína e assim diminuir a importação de soja em 15%. Somado a isso, a Europa poderia aumentar as plantações de oleaginosas para fabricar a ração, comprar soja de outros países como Ucrânia e Paraguai, e assim ter mais alternativas.
O senhor acredita que um dia a China consiga controlar o preço mundial da soja?
Se for num curto período de tempo, sim. Mas quem poderia ter esse controle de preço são os EUA, a Argentina e o Brasil, caso eles diminuam a produção. Porém, isso não fica nas mãos do governo, mas é uma decisão que parte dos cartéis. Existem cartéis em quase todos os países, embora a Organização Munidal do Comércio (OMC) não permita. A única forma da China influenciar o preço é estocar e depois vender um volume muito grande, caso eles tenham medo do preço interno subir muito. O risco está em negociar com as empresas estatais na China; para quem está de fora fica difícil saber como a empresa funciona, falta mais transparência. A soja é oriunda da China, mas hoje eles já não possuem o controle e o maior pesadelo chinês é um dia ficar nas mãos da Monsanto. Isso explica porque eles produzem a própria soja trangênica, e compram a convencional.
A União Européia comunicou, em junho deste ano, que irá diminuir em 5% a importação de soja. Isso tem relação com a proposta de corte?
A Comissão Européia não tem o poder direto para reduzir a importação, a única coisa que eles poderiam fazer é adicionar uma tarifa e de forma indireta reduzir o comércio. Mas o que aconteceu recentemente foi o decréscimo das tarifas na importação de grãos. O medo é ter um preço doméstico muito alto e sofrer inflação. Não tenho o conhecimento de nenhuma medida da Comissão Européia no sentido de reduzir drasticamente a importação; quando eles leram o relatório, não me pareceu que se convenceram quanto aos riscos. Mas caso isso aconteça acredito que haveria uma troca comercial com o Brasil. A Europa diminuiria a soja, porém importaria mais suínos e aves, o que é uma medida sustentável a fim de diminuir o estrume por aqui. O maior problema na pecuária européia é o estrume. Caso o Brasil consiga intensificar sua agricultura, essa seria uma boa troca.
A tendência da agricultura sustentável é que a produção de alimentos seja local e decentralizada, ou seja, o consumidor próximo do fornecedor. Consequentemente, os animais deveriam estar próximos às fontes de matéria-prima da ração. É esse o conceito que move a Europa a produzir a própria ração animal?
Não há um consenso quanto a isso. Particularmente, eu não gosto da distância entre consumidores e fornecedores. O conceito de comércio local é algo que a WWF está promovendo e, por esta razão, a exportação da carne suína brasileira pode aumentar. Mas com todos os pro
O holandês Wouter van der Weijden, da CLMblemas climáticos, o cenário é muito instável, isso deixa os políticos agitados. Mas a Europa está em negociação com o Mercosul, provavelmente haverá um aumento de importação de carnes suínas e aves para a Europa. Também sou a favor do mercado globalizado.
Como a Europa poderia produzir mais oleaginosas?
A França tem um excedente de terras e poderia produzir as oleaginosas lá, onde Comissão Européia estimula o cultivo de novas variedades. Se o custo da pecuária ficar alto e houver a competição, o mercado necessitará encontrar o equilíbrio. Fora isso, importar a carne traz uma vantagem para o pecuarista europeu, ficariam livres de parte do estrume gerado. Hoje o excedente do estrume é usado no biogás, mas ainda assim não conseguimos dar um fim aos resíduos que geram uma super concentração de gases de efeito estufa. Especialmente na Holanda, produto da pecuária intensiva, isso é uma armadilha. Pensávamos que poderíamos encontrar uma solução, mas até o momento ela não existe. Deve haver um balanço entre o uso da terra com a pecúaria.
Como são vistos os países fornecedores de soja - EUA, Brasil e Argentina - em termos de confiança no mercado?
Os EUA é o mercado mais consistente para a soja, apesar de serem muito protecionistas e sofrerem muito com problemas climáticos. O Brasil é confiavél, nunca houve nenhuma suspeita de crise ou de manipulação no preço da soja. O que se sabe é que o Brasil precisa aumentar a produtividade por hectare para evitar expandir as àreas. Se houver um foco na intensificação, é possível zerar o desmatamento. Já na Argentina existe duas questões: os transgênicos e a manipulação de preço. A Argentina tem herbicidas mais resistentes devido aos trangênicos, a saúde pública está em risco. A Europa não vê com bons olhos o uso em larga escala do roundup (pesticida da Monsanto) na Argentina. A Europa não aceita trangênicos e segue o discurso do Greenpeace. Fora isso, a presidente Kirchner aumentou as tarifas de exportação da soja e do trigo, manipulando o preço. Se a política do Brasil mudar, eles também podem visar aumentar as tarifas. Os dois países são vizinhos, ambos com mulheres populares no cargo de presidente, e que são parceiras. Portanto o Brasil poderia sim seguir o exemplo da Argentina, não excluo essa possibilidade de acontecer. Como os contratos são sempre de um ano, tudo é muito instável, devemos prever riscos e estar preparados caso uma calamidade aconteça. A China poderia alterar sua política de mercado, diminuir a produção da própria soja e comprar mais soja. Num momento de desastre nas colheitas, que se repita por alguns anos devido às mudanças climáticas, e ainda uma crescente demanda do mercado interno, é possível que esses países usem toda a soja e não tenham excedente para exportar. Quanto maior o número de produtores de soja, menor os riscos.
A previsão é que em 2020 o Brasil produza 95 milhões de toneladas de soja, quase 20 milhões a mais em relação aos atuais 73 milhões de toneladas. Por que na Europa existe essa desconfiança?
Bom, não quero ser arrogante, mas gostaria de pontuar algumas sugestões de melhoras para o Brasil. Primeiro, não use áreas novas para a agricultura, tanto o cerrado quanto a floresta devem ser conservados. Portanto, aumente a produtividade. Segundo, alcance o potencial máximo que a terra utilizada pode dar através de técnicas inteligentes (intelligent farming). Terceiro, avalie de que forma você pode exportar carne ao invés de soja e, assim, ter um maior lucro. Cuide da qualidade do seu solo, use estrume no solo, não deixe o solo ficar empobrecido. Por último, esteja consciente dos impactos do uso de OGM (organismos geneticamente modificados) na saúde pública, pois isso cria resistência em insetos e sementes. Mantenha a soja convencional pois essa é a melhor. A plantação de soja convencional é mais lenta se comparada com a de transgênicos, mas a soja natural pode se tornar mais eficiente com o mapeamento e seleção dos genes, assim a produtividade aumenta e o OGM fica menos vantajoso.
O senhor sugeriu intensificar a agricultura no Brasil. A Holanda é um exemplo de eficiência no sistema intensivo, porém tornou-se refém dos fertlizantes. Não é melhor usar mais terras no Brasil do que vir a ser tão eficiente como a Holanda e depois poluir com o excesso de gases de efeito estufa?
Intensificar é também produzir uma maior variedade, e não apenas investir mais em tecnologia. Acho que desmatar é pior e deve ser evitado. Na Europa existe um excedente de terras, a França é um exemplo, pois a cada ano a produtividade cresce. Quanto a poluir, não confunda Holanda com Europa. A Holanda tem o sistema de pecuária mais intensivo na Europa. Estamos tentando resolver os problemas que isso gera, já houve uma redução. Mas a Europa é extensa e poderia usar mais terras, se for feito um processo lento dentro de 10 anos poderiamos diminuir a importação de soja sem qualquer problema.
E isso não seria visto como protecionismo?
Depende, se aumentarmos a importação de frangos e suínos do Brasil, acho que não teria importância, pois isso agrega valor e gera mais dinheiro para os brasileiros.