Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Fui ver a banda passar...

Fui ao desfile de 'se-setembro'. Uma oportunidade única para ver todo o tipo de gente e classe. Cada qual em seus devidos lugares, claro! Um tipo na sombra, outro tipo no sol escaldante. Fiz algumas fotos cómicas e resolvi transformar o meu inconformismo atual em palavras.

A Holanda é um país que foi re-re-recriado por engenheiros e arquitetos. Brasília é a grande cidade planejada. Morando nesses dois lugares, não poderia ser diferente: passei a me interessar por arquitetura. Descobri o poder que as formas das cidades exercem na vida de um povo. Isso é o que a Filosofia da Arquitetura estuda. Arquiteto não é artista, ele é obrigado a obedecer as ordens da sua clientela. No caso de Brasília, os clientes eram a classe dominante e o Estado. JK podia até ser um excelente presidente, mas com certeza devia estar cercado pelos avós dos atuais Senadores e Deputados.

As paquitas deram o ar da graça no desfile.

Sim, os prédios em Brasília são lindos. Mas beleza que seja tão somente contemplativa é inútil. Gostaria de ver mais transparência, um acesso mais amplo e direto, tudo com menos luxo. Não, não é do governo que eu estou falando. Lindo é, mas a arquitetura aqui não possui a mínima função social, são formas vazias, um disfarce das desigualdades. Ah, é porque tinha que ser uma obra de arte? Mas a classe dominante já não tem um arcevo suficiente? Não é de um curador de arte que a sociedade brasileira precisa, mas sim de um curador de mazelas sociais. Ou um edifício é considerado bonito quando cumpre a função de manter a classe dominada afastada?

Visitei inúmeros castelos europeus. Essas fortalezas medievais produziam duas sensações opostas, só dependia do lado e da classe para defini-las. Para o senhor feudal ou o rei era símbolo de proteção e confiança; Já no povão ela infundia medo da classe alta, sentimento de impotência e conformismo. Fazer uma analogia com o projeto de Brasilia já seria óbvio demais!

Ainda cabem mais 804 pessoas.

O que não é assim tão claro é o fato do projeto ir contra as tendências da época. Poxa, um país tropical, no meio de um deserto e o povo metendo concreto? Faltou industria para produzir estruturas metálicas, mas não o concreto que utiliza uma técnica construtiva bem primitiva. Utopia da Modernidade total. Prédios funcionais, para quê? Por que não um parque da cidade com acesso a todo o entorno do Lago? Deixaram a elite morando e curtindo a beira do Lago e só deram ao povão um par de metros cúbicos num lugar super mal localizado, uma prainha debaixo da ponte.

Brasília foi criada para abrigar 600 mil habitantes, mas possui hoje 2.5 milhoes de habitantes. Segundo o IBGE, apenas 240 mil habitam o Plano Piloto de Brasília. Claro, o projeto de Oscar e Lúcio são super elogiados, quem sou eu pra falar alguma coisa contra? Deve ser porque o que tá ruim para a classe dominada é considerado positivo pelos dominadores. Para mudar alguma coisa, só quando a alta cúpula começar a sentir vontade. Ah, mas um país que conviveu com senzalas e hoje aceita penitenciárias lotadas, Brasília é paraíso.

As aeromoças da Varig não estão mais desempregadas.

Os prédios aqui são quentes, abafados e escuros. Sim, são muito bonitos. Mas que tem a sua base na repressão, na desigualdade e na acumulação da riqueza e promoção da miséria. Tudo se traduz em política clientelista, políticos dão lotes nos cantos mais remotos do DF em troca de votos. Mantendo os mesmos ratos nesse esgoto e colocando gente lá onde não tem esgoto. E aparece no jornal o Exército invandindo as favelas do Rio para garantir o direito dos eleitores. Mas esqueceram que os piores bandidos ficam em Brasília.
O povo em pé? Esqueceram a cadeira de rodas em casa?

O que JK é pra Brasília, Gaudí é para Barcelona. Mitos. Importante lembrar que JK foi assassinado 16 anos após a construção de Brasília, num forjado acidente na Via Dutra em 1976. Gaudí também morreu num acidente forjado. Termino com uma frase que já postei, mas gosto muito: a verdade só precisa ser descoberta, porque alguém a escondeu.



E essa é a imagem que eu acho a cara de Brasília.
Sombra para poucos e fortaleza muito bem protegida.

1 comentários:

Anônimo disse...

é Bia... não é a tôa que Brasilia é carinhosamente chamada de ilha da fantasia... nada mais que ilusão!

Ju