Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

História pra contar

Acho que toda família tem o dever de deixar como herança histórias de vida para serem contadas para os netos. Na minha isso nunca faltou e por ter cursado jornalismo existe a maior pressão para que eu escreva um livro sobre os meus avós. Quem sabe um post já não é o início?
Para entender meu avô é preciso entender os meus bisavós, que participaram da Segunda Guerra Mundial e foram considerados traidores (e eu acredito que esse foi o motivo para o meu avô não querer morar na Europa). Meu bisavô foi obrigado a lutar pela Alemanha, e morreu num campo de concentração por informar aos holandeses "inimigos" onde as bombas alemãs iriam cair. Ele se casou com uma holandesa em plena guerra. E no pós-guerra, mulheres que haviam se casado com alemães eram humilhadas e tinham suas cabeças raspadas em público.

A história do meu avô com o Brasil começou quando ele encontrou um livro sobre tribos indígenas numa livraria. Foi assim que ele decidiu o lugar onde iria morar pelo resto da vida. A noiva dele topou se casar mais cedo que o previsto com o propósito de acompanhá-lo nessa "loucura" , segundo a família deles. Na época meu avô tinha 21 anos e minha avó 19. O projeto era ajudar povos indígenas e construir um hospital com a ajuda dos amigos de lá que montaram uma ONG chamada Missão Cristã Brasileira. Eles vieram parar em Vila Bela da Santíssima Trindade, depois de uma temporada no sul do Brasil.

Na nossa tradição de netos, chamamos o meu avô de Opa e a minha avó de Oma, que significam o mesmo em Holandês e Alemão. Como a maioria dos imigrantes, eles usavam o língua materna com os filhos. Mas perderam a primeira filha recém-nascida no Brasil com surto de meningite que arrasou a região. Opa então recebeu um convite para trabalhar na Suiça, ele recusou. Com o respeito adquirido na construção do hospital, ele logo foi chamado para fazer o loteamento de terras no município. Enquanto alguns fazendeiros ganham subsídios para reflorestar, ele é o único dono de terra que nunca tocou numa árvore, indo contra a vontade dos filhos e agora dos netos (pois é cabeça dura e teimoso).

A frustação do meu avô com o Brasil é saber que grandes nomes da política brasileira (cito aqui com certeza apenas Delfim Neto) estão por trás de grupos estrangeiros que exploram os recursos naturais (como é o caso de um grupo canadense que tem uma mina de ouro na região do Guaporé) tudo debaixo dos panos. Vila Bela é também porta de entrada para toda a cocaina que sai da Bolívia. Se na região amazônica, com mata fechada, a droga da Colômbia não é barrada pelos"muitos"9 policiais federais (segundo reportagem da Veja), imagina numa simples Vila? Como pode o Rio de Janeiro ter a maior guerra do tráfico, se no Brasil não se planta nada? Apesar de ser líder de produção de drogas químicas como LSD e crack, mas isso não ganha destaque.
Contudo, também houveram grandes conquistas, ele planejou e contruiu a casa dos sonhos de qualquer desbravador, na beira do Rio Guaporé. Sempre que passo as férias lá, vejo gente estranha pedindo para entrar na casa e fazer uma foto na sacada, pois virou atração turística. A história dele já foi tema para historiadores, apareceu em programas de televisão e virou documentário na Holanda. Sem sombra de dúvidas ele é uma pessoa fora do comum, consegue ter dom para pintar quadros, consertar qualquer tipo de coisa e ainda inventar ventilador de parede, roda de carroça que vira luminaria e outras centenas de engenhocas.

As vezes ele repete histórias, mas nunca deixa de contá-las. Ele já foi ameaçado de morte, já pilotou avião sem combustível e foi um dos primeiros missionários a ser respeitado nas tribos indígenas de MT. É o brasileiro mais legítimo que eu conheço, renunciou a cidadania holandesa e alemã para não ter problemas burocráticos no Brasil. Adotou duas crianças índigenas que iriam ser sacrificadas nas tribos.

Passar as férias na casa deles era ter a certeza de que iria enfrentar sapos, jacarés, mosquistos, besouros e até cobras dentro do quarto. Contudo, ver o boto cor-de-rosa passando no rio, deitar na rede para ler apreciando o tucano e o joão de barro na arvore ao lado, comer e brincar muito com meus primos eram a parte boa da aventura. Tem coisas que deveriam ser pra sempre, e devorar as guloseimas da minha avó é uma delas.

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