Domingo, Agosto 16, 2009

A lagoa e o mar

A crônica A lagoa, de Rubem Alves é uma das metáforas mais bonitas e originais que conheço. E durante a visita a um aquarium, não consegui parar de pensar em quão ele estava certo.

"À nossa frente, a lagoa imensa. Nem uma brisa encrespa sua superfície lisa. Nela aparecem refletidas, invertidas, as coisas do mundo de fora: chorões com seus longos galhos (...), as nuvens brancas navegando o azul do céu, as garças em seus vôos harmoniosos. Lagoa, espelho, onde tudo cabe. Vez por outra um peixe salta inesperadamente, para logo desaparecer, deixando ondas que se espalham em círculo pela superfície do lago. (...) Assim é o lago, visto de fora."
"Mas se o observador for curioso e não tiver medo, ele poderá mergulhar. E seus olhos verão então um outro mundo que da superfície não se podia ver: mansos peixes coloridos, plantas aquáticas, traíras e piranhas vorazes, barcos apodrecidos, restos de naufrágios, e todo tipo de formas que do lado de fora não podiam ser vistas. Um mesmo lago: de fora uma coisa; nas funduras outra.
Os místicos, poetas e artistas desde muito sabem que o corpo é um lago: na superfície lisa está espelhado o mundo de fora. Mas basta atravessar o espelho com um mergulho (...)para chegar a um mundo que existe no avesso do corpo, que do lado de fora não se vê, estranho, totalmente diferente."



Rubem Alves também faz uma referência ao trabalho "Ar e Água" do pintor holandês Escher.

"Está aqui representado, num simples desenho, o estranho mundo que os místicos e artistas viram que a psicanálise tenta compreender. Nós mesmos: seres alados que voam no mundo luminoso, seres subaquáticos que nadam num mundo misterioso".

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